Premier de Portugal vira referência para esquerda em Europa onde direita cresce

Por Gian Amato.

Solução de António Costa para economia passa pela imigração; brasileiros são a maior colônia no país europeu.

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Portugal’s Prime Minister Antonio Costa arrives at a European Union leaders summit in Brussels, Belgium December 13, 2018. REUTERS/Francois Lenoir. (Foto: FRANCOIS LENOIR / REUTERS)

António Costa segurava um sorriso tímido diante das câmeras de TV e do fracasso da manifestação dos coletes amarelos em Portugal na última sexta-feira. O primeiro-ministro visitava o bairro da Jamaica, no Seixal, margem sul de Lisboa, onde famílias pobres foram retiradas de casas degradadas, quando comentou, sem detalhes, os protestos em todo o país. Sem adesão popular ou distúrbios como em Paris, o desastre do movimento acabou ajudando a coroar um ano em que o secretário-geral do Partido Socialista (PS) avançou na condição de favorito para as eleições legislativas de 2019.

O cenário no Centro de Lisboa, a 25 quilômetros do Seixal, ajudava. A manifestação chegava ao fim esvaziada, com apenas dezenas de coletes amarelos cabisbaixos e dispersos sob a fina névoa e o frio do início do inverno: a organização, que tinha extensa pauta de reivindicações, culpava a infiltração da extrema direita no movimento como motivo principal do “falhanço”, com se diz em Portugal.

Não poderia haver desfecho melhor para um premier referência da esquerda numa Europa que convive com a ascensão dos partidos de direita. Tal fato fez o semanário inglês The Economist classificar Portugal do período pós-austeridade como “o pequeno milagre no Atlântico”. A reportagem foi ilustrada com uma caricatura de Costa pedalando para fazer voar um triciclo construído com asas de madeira e penas de aves. No chão, a população observa atônita. O veículo alado tem carimbado na cauda o apelido da solução informal de governo inventada por Costa: “geringonça”. Nunca houve melhor representação gráfica desta união inédita das esquerdas portuguesas.

O surgimento da geringonça é o exemplo de como Costa é hábil em reverter algo desfavorável. Em 2015, o PS perdeu as eleições legislativas para a coligação de direita e centro-direita Portugal à Frente — entre o Partido Social Democrata (PPD/PSD) e o Partido Popular (CDS/PP) — por uma diferença de 300 mil votos. O país acreditava que Costa aceitaria uma proposta de aliança com os vencedores, que não tinham a maioria parlamentar. Mas Costa negociou e fechou acordo de apoio com o Bloco de Esquerda (BE), o Partido Comunista Português (PCP) e o Partido Ecologista (PEV). A esquerda tinha a maioria parlamentar e rejeitou a nomeação de Pedro Passos Coelho pelo então presidente da República, Cavaco Silva.

De pé crise após crise

Estava criada a geringonça, nome que virou febre no país. O batismo aconteceu em novembro de 2015, logo após a nomeação de Costa. Paulo Portas, líder do CDS-PP, disse no Parlamento na ocasião, dando ênfase na conotação negativa:

— Não é bem um governo, é uma geringonça.

Costa rebateu:

— É geringonça, mas funciona — disse o primeiro-ministro, arrancando gargalhadas até da oposição.

Os opositores deram seis meses de vida à geringonça. Três anos depois, os partidos da coligação informal têm mais apoio popular que no início. Somados, arregimentam 53% das intenções de voto para as eleições de 6 de outubro do próximo ano, segundo números da pesquisa da Aximage divulgados em novembro. Somente o PS tem 37,8%. Para atingir maioria parlamentar, são necessários 45% dos votos. A menor taxa de desemprego (6,7%) em 14 anos e a dificuldade de afirmação de Rui Rio, do PSD, um dos principais nomes da oposição, são fatores que os especialistas apontam para o favoritismo.

— O sucesso de António Costa está associado ao do governo em certos pontos. O primeiro é o fato de ele fazer uma política de esquerda, mantendo fundamentais os compromissos com a União Europeia. O segundo é a estabilidade governamental. Havia alguma incerteza, mas com a aprovação do quarto Orçamento do Estado, ficou provado que o governo chegará estável ao fim do mandato — explica António Costa Pinto, coordenador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

Mas Costa é um político popular? Ainda está no meio do caminho. Em uma escala de 0 a 20, seu índice pessoal de popularidade, medido pela Aximage, caiu de 13,6 em fevereiro para 10,6 no último mês. Apesar de simpático e amável no trato com população, aliados e opositores, os críticos do primeiro-ministro dizem que ele carece da empatia e do domínio da narrativa midiática, que são abundantes no presidente da República, Marcelo Rebelo, escolhido pela população como o melhor presidente desde o fim da ditadura, em 1974. Estas lacunas foram preenchidas com habilidades ímpares de trabalho e negociação. E com capacidade de seguir inabalável crise após crise.

— As oscilações na popularidade remetem aos acontecimentos fora da esfera econômica, como os incêndios de Pedrogão Grande (em junho de 2017). Costa, às vezes, não foi muito sensível, ao contrário do presidente da República. Sob o ponto de vista da popularidade, os incêndios foram importantes — diz Pinto.

Ao mesmo tempo em que o apoio à geringonça aumentou, o número de greves disparou e, até o fim do ano, serão mais de 50: enfermeiros, guardas prisionais, bombeiros, juízes, professores, seguranças dos aeroportos, entre outros. Apesar do desemprego em baixa, o salário mínimo de € 568 (€ 600 em 2019) é um dos menores da União Europeia e não acompanhou a retomada da economia. A Espanha, por exemplo, aumentará para € 900.

— Ninguém pode morrer porque há o exercício do direito à greve — declarou Costa no debate quinzenal no Parlamento, quando comentava a paralisação dos enfermeiros dos blocos de cirurgia: — Não é aceitável.
Imigração necessária

Enquanto o funcionalismo conseguiu parar serviços essenciais, como saúde e educação, Costa anunciou de maneira surpreendente, na votação do Orçamento do Estado, no último mês, que Portugal pagaria mais € 4,7 bilhões, quitando os € 28 bilhões totais da dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI) até o final de 2018. A medida poupou € 100 milhões aos cofres portugueses. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) prevê déficit de apenas 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB) para 2019.

Ao pagar a dívida externa e controlar as despesas públicas, Costa atrai admiração estrangeira e enfrenta problemas em casa. Envelhecido, o país terá apenas metade da população em idade produtiva em 2068. A solução do premier está na imigração. Os brasileiros são a maior colônia oficial, com mais de 80 mil. Em outubro, entrou em vigor a Lei dos Estrangeiros, que facilita a obtenção de vistos de residência para trabalhadores qualificados, estudantes e empreendedores.

— Precisamos de imigração e tem que ser dito com toda a clareza: precisamos atrair talento para viver em Portugal — disse Costa em um congresso.

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