Dólar alto e mudanças em leis criam “boom” de shows brasileiros na Europa

Portugal recebe em 2020 shows de grandes artistas como Maiara & Maraísa, Zeca Pagodinho, Eduardo Costa, Ana Carolina, Marília Mendonça, Gal Costa, Jota Quest e Michel Teló.

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Em 2018, Anitta lotou o Royal Abert Hall, em Londres, um dos mais tradicionais teatros de Londres. (Imagem: Marcelo Hallit/Divulgação)

A música brasileira nunca tocou tanto na Europa, e estamos falando de apresentações ao vivo. Nos últimos tempos, grandes nomes da MPB, como Gal Costa, Djavan, Milton Nascimento e Martinho da Vila, além de talentos emergentes, incluindo Luedji Luna, Rincon Sapiência, BaianaSystem, Bixiga 70 e Karol Conká, viraram figuras frequentes em vórtices importantes da cultura europeia, como Londres, Paris, Berlim e Lisboa.

Com demanda em alta, novatos de idade e carreira, como a paraense Dona Onete, vêm tendo a chance de fazer as primeiras tours internacionais, e veteranos, de voltar ao continente para se apresentar pela primeira vez em algumas cidades. Ney Matogrosso e Roberto Carlos, por exemplo, fizeram em 2019 suas estreias na capital inglesa, enquanto Milton Nascimento brilhou levando o Clube da Equina ao Barbican Centre, maior centro artístico da Europa.

Este ano, Gilberto Gil deve retornar ao histórico festival de Glastonbury, depois de quase cinco décadas. Gal Costa, Paulinho da Viola, Jorge Aragão, entre muitos outros, também estão de malas prontas, esperando os ingressos se esgotarem por lá, o que geralmente acontece quando a festa é brasileira. O movimento é forte e não se resume a um ou dois estilos musicais. Artistas populares como Anitta e Wesley Safadão também já passaram pelo velho continente.

Essa onda do entretenimento, que começou por volta de 2015 e vem se intensificando nos últimos anos, tem múltiplas explicações, que podem ser resumidas em cinco tópicos:

  • Desvalorização do real. Com o euro e libra nas alturas, contratar e produzir turnês de brasileiros ficou mais fácil;
  • Mudanças nas leis de incentivo, como a Rouanet, levaram à diminuição do número de festivais e eventos bancados por marcas, sobretudo em cidades menores e fora do eixo Sudeste;
  • A crise econômica fez prefeituras brasileiras reduzirem cachês e, consequentemente, a oferta de eventos públicos;
  • Cresceu o número de brasileiros vivendo em capitais europeias; em Portugal, apenas em 2019, o número saltou 43%, passando de 105 mil para 150 mil pessoas;
  • Também aumentou o interesse estrangeiro sobre a música brasileira, impulsionado pelas plataformas de streaming e crescimento de estilos fora do espectro samba/bossa nova.

300 shows por ano

A reportagem conversou com produtores e profissionais ligados à música, que estão levando brasileiros ao velho continente e mudando a cara do circuito de shows europeu. Não há números oficiais, mas as estimativas apontam para cima.

Segundo a produtora britânica Backstage Productions, que vem liderando o fenômeno dos shows brasileiros, cerca de 60 artistas nacionais, entre cantores e bandas, passaram pelo continente ao longo do ano de 2019, promovendo aproximadamente 300 apresentações em cerca de 15 países.

O principal mercado está nas capitais e em cidades com cenas culturais pujantes, e os contratantes vêm cada vez mais prospectando artistas de estilo diferentes. Pagode, sertanejo e funk já competem com gêneros tradicionais e começaram a ditar tendências.

“Antes da crise, há uns sete, dez anos, havia metade dos shows que acontecem hoje. O ponto central são os valores de cachê, que subiram muito aqui, especialmente de três anos para cá. Seguindo a desvalorização do real, alguns mais que dobraram, atraindo muita gente”, diz ao UOL Manitu Szerman, sócio da Backstage, um inglês com jeito de brasileiro que atua há uma década no segmento.

Ney Matogrosso faz primeiro show da carreira em Londres, em outubro de 2019.
(Imagem: Laís Alegretti/BBC)

Quem está levando?

Além da Backstage, outras duas agências estão atuando fortemente para maximizar a oferta de shows nacionais na Europa: a alemã Eiden Music Agency e a britânica Yellow Noises, criada em maio de 2018, uma parceria de Szerman com dois sócios brasileiros, os produtores Rodrigo da Matta e Juliano Zappia.

Eles, que se definem como “malucos” por apostar em um ramo promissor, mas relativamente ainda pouco explorado, viabilizaram em 2019 turnês de Criolo, Milton Nascimento, Martinho da Vila, Nando Reis, Zeca Pagodinho e Maria Rita. Vem dando certo. Também estão levando Gal e Paulinho da Viola a seis cidades este ano: Lisboa, Porto e Faro, em Portugal, além das capitais Paris, Berlim e Londres.

“Isso tudo já havia acontecido de forma semelhante por volta de 2008. O dólar também havia subido e ficou atrativo para os músicos, mas o efeito durou pouco, porque logo em seguida a Europa entrou em uma grande recessão”, explica Zappia, que teve um ano de ouro em 2019, com shows de grandes nomes agendados quase todos os meses.

Ele diz que a desconfiança inicial de contratantes estrangeiros foi vencida rapidamente à medida que os ingressos começaram a esgotar e o burburinho virar notícia. “Nos anos 1990, havia muitas gravadoras lançando brasileiros na Europa. Mas, com a crise do formato físico, ficou mais difícil chegar lá e o interesse diminuiu em 2000, passou por uma bolha e está voltando só agora. Há bastante otimismo com o que está acontecendo.”

Criolo se apresenta na última edição do Mimo Festival, em Amarante, Portugal.
(Imagem: Lino Silva/Divulgação)

Só brasileiro na plateia? Não exatamente

A maioria das apresentações são menores e mais intimistas do que as realizadas no Brasil. Normalmente, o público de shows individuais varia de 200 a 3.000 pessoas, a depender do local, evento e estilo de artistas —como a logística de viagem é mais cara, alguns abrem mão de infraestrutura de palco, telões e iluminação, geralmente visitando de quatro a sete cidades.

Assim como por aqui, o popular também reina lá fora. Produtores explicam que nomes como Anitta e Safadão atraem plateias com mais de 90% de brasileiros, com muitos casais e famílias. Já os mais ligados à bossa nova e world music, como Milton Nascimento, Djavan e Marcos Valle, são favoritos de estrangeiros, que muitas vezes são maioria.

Alguns são escalados nos tradicionais festivais de verão europeus, e também há a possibilidade de entrarem em eventos brasileiros que vão de pequenos festivais à versão portuguesa do Villa Mix, que reúne mais de dez mil pessoas em Lisboa.

Preferências geográficas importam. Livre da barreira da língua, Portugal tem o hábito de abraçar novidades e shows sertanejos, o que de certa forma também acontece na França. No Reino Unido, onde Gil e Caetano se exilaram, a nata da MPB concentra os holofotes.

Sempre tive o sonho de tocar na Europa, por receber muitos imigrantes, por ter um radar diferente sobre a música do mundo. E isso seduz muita gente. Eles já sabem muito bem que o Brasil não se limita mais a samba e bossa nova. Os shows têm energia. Mesmo quando não entendem a letra, eles abraçam a linguagem. Em Portugal, é sempre incrível.

Rincon Sapiência, rapper que há três anos faz turnês bem-sucedidas na Europa e recentemente passou por Cabo Verde
O rapper Rincón Sapiência. (Imagem: Divulgação)

Futuro

Imaginemos um Brasil futuramente mais próspero, com moeda fortalecida e fluxo migratório estabilizado: os shows brasucas vão diminuir em quantidade e/ou apelo junto ao público europeu? Não.

Na opinião de especialistas, esse movimento é diferente do que aconteceu há uma década e tem fôlego. A música brasileira mudou, está mais acessível e cada vez mais conquistando novos territórios. Um exemplo: a crescente popularidade do funk entre fãs e também artistas gringos.

“Acho que os shows brasileiros ainda vão saturar por um pouco mais de tempo. Enquanto o país não voltar a crescer, muitos estarão dispostos a sair do Brasil. E essa experiência vai sendo passada a outros artistas e empresários. Acho que ainda estamos no início”, entende Manitu Manitu Szerman.

“A música brasileira sempre foi relevante no exterior. E hoje existe um mercado interno crescendo por várias frentes, que já consegue competir com o africano na Europa, que sempre foi muito grande e relevante”, conclui o produtor e pesquisador musical Leonardo Feijó.

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