Em busca de carreira na Europa, jovens brasileiros ‘invadem’ liga portuguesa

Por Gonçalo Junior.

Jogadores do País se transferem cada vez mais cedo para Portugal, que chega a ter time com 19 atletas do Brasil.

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Bruno Furtado em 2018 quando aínda jogava pelo Orlando City dos Estados Unidos. (Foto-OCSC)

O meia Bruno Furtado chegou a Portugal no ano passado aos 16 anos, depois de passar 4 anos nos Estados Unidos, jogando na divisão de base do Orlando City, ex-time do Kaká. A mudança para Portugal foi para buscar uma maior vitrine do futebol mundial, segundo ele. Enquanto regulariza sua documentação e aguarda a janela de transferência para pode ser inscrito, Bruno treina no clube Oliveirense, localizado na cidade de Oliveira de Azeméis, próximo a cidade do Porto. O clube disputa a Segunda Divisão portuguesa. Seu time não paga salários para os meninos da base, nem alimentação ou alojamento. Mesmo assim, o atleta se diz feliz por estar na Europa.

A trajetória de Bruno não é um ponto fora da curva. Os jovens brasileiros estão indo cada vez mais cedo para a Europa. A nova conjuntura vai além dos casos célebres, como Vinicius Junior, que foi contratado pelo Real Madrid quando tinha 17 anos, mas só se transferiu depois da maioridade. O cenário abrange também os jogadores que ainda buscam o estrelato e se transferem para times pequenos e medianos. Com isso, a Copa São Paulo perde um pouco de seu brilho como grande vitrine. “Todo jogador sonha com uma transferência para a Europa. A oportunidade surgiu e era o meu sonho”, diz o meia.

Lucas Fernandes, 21 anos, em partida do Portimonense contra o Marítimo, pelo Campeonato Português. (Foto: Helder Santos/ASPress)

O que fez o lateral-esquerdo João Lucas arrumar as malas assim que completou a maioridade foi a diferença de estrutura comprovada pelos amigos que viajaram antes dele. “O Brasil, tanto no profissional como nas categorias de base, está um pouco atrás do futebol europeu. Os times de segunda e terceira divisões têm problemas de estrutura para os atletas. Na Europa, é diferente”, compara o defensor, que começou sua passagem na Europa no Alcochetense, da Terceira Divisão portuguesa.

Em função do idioma, Portugal é o destino preferido. Hoje, o Brasil tem 152 atletas divididos pelas 18 equipes só na Primeira Divisão de acordo com o site Transfermarket, especializado em transferências internacionais. A Diretoria de Registro, Transferência e Licenciamento da CBF aponta que a terra de Cristiano Ronaldo e Figo foi o país que mais contratou brasileiros na última janela. Foram 51, a grande maioria entre 18 e 23 anos. Esse movimento migratório cria alguns casos curiosos. O Naval tem oito brasileiros (cinco na base e três no profissional). Já o Portimonense tem 19 jogadores do País (leia abaixo).

A Europa não é propriamente o paraíso para os principiantes. Pelo contrário. Alguns clubes não pagam salário e outros dão uma ajuda de custo que varia entre 150 euros (R$ 640) e 400 euros (R$ 1700). “Estou em busca de um objetivo, que é ser atleta profissional. Agora não estou ligando muito para dinheiro. Tudo tem seu tempo”, diz Maurício.

Para a aventura dar certo, os atletas têm de se adaptar aos gramados sintéticos, realidade nas divisões inferiores, e às exigências táticas dos treinadores – exigências mesmo. Eles têm de encarar também o frio na casa dos 5 °C nesta época do ano.

As relações têm uma temperatura um pouco melhor. “Nós fomos muito bem recebidos. Foi melhor do que eu imaginava”, comemora João, que estava preocupado com preconceito e discriminação.

O economista Michel Augusto de Souza Teixeira viu na imigração antecipada um nicho de mercado. Ele criou uma empresa de gestão de carreira de atletas que oferece acompanhamento médico, preparação física e até assessoria financeira. Hoje, atende uma dúzia de atletas em Portugal, Itália e Malta. Auxilia mais jogadores no exterior do que no Brasil, a maioria até 23 anos. “A Europa é a melhor vitrine. Além disso, mesmo que o atleta não dê certo, ele ganha credibilidade e valorização numa eventual volta ao Brasil”, diz o empresário.

Seis perguntas para Lucas Fernandes, meia do Portimonense

1. Adaptação, definitivamente, não deve ter sido um problema para você, certo? Além do idioma, o clube conta com 19 brasileiros no elenco…

A adaptação em Portugal foi muito boa e rápida. Eu já conhecia muitos jogadores daqui do Portimonense e isso me ajudou bastante.

2. Como funciona o vestiário do Portimonense? Às vezes, você tem até a sensação de ainda estar jogando em um clube do Brasil?

Por mais que a maioria seja brasileira, é diferente. É outro ambiente, outra cultura de trabalho, mas dá para se sentir um pouco “em casa”, sim. Isso ajuda bastante.

3. Os jogadores de outras nacionalidades estranham um pouco? Acaba, não por maldade, mas por afinidade mesmo, criando-se uma “panela” de brasileiros e outra com o “restante”?

É um pouco mais difícil por conta da língua para eles, mas nosso grupo aqui no Portimonense é muito bom, muito unido. Sempre estamos todos interagindo, sem deixar ninguém de lado.

4. Em termos de cultura, o clube é muito diferente do que você estava acostumado no São Paulo? Me refiro a disciplina, regras de conduta, postura dentro e fora de campo… Eles entregam alguma espécie de cartilha para quem chega?

Quase não tem diferença, pois, assim como o grupo, a diretoria também é brasileira, então muda pouca coisa. Me entregaram umas duas folhas com algumas regras, mas nada que eu já não estivesse acostumado no São Paulo.

5. Em campo, você tem jogado na mesma função da época do São Paulo, como meia de ligação?

Tenho jogado na minha posição, de meia, ou às vezes de segundo volante, saindo mais de frente para jogar. Eu me sinto muito à vontade nessas duas posições.

6. Seu contrato vai até maio. Quais são os planos? Pretende ficar na Europa por mais tempo ou sonha em voltar ao São Paulo e se firmar no Morumbi?

Estou focado em fazer um bom campeonato aqui, tanto individual como coletivamente. Sendo assim, o que acontecer no final desse contrato será fruto do trabalho feito aqui.

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