Portugal cria visto especial para atrair profissionais de TI

Brasileiros ficaram com 284 dos 338 Tech Visas emitidos até julho. Processo é mais rápido do que caminho tradicional.

Stella Vaz obteve o Tech Visa: ‘Recebi por correio o meu contrato de trabalho e a passagem de avião'(Foto: Gian Amato)

A carioca Stella Vaz procurava emprego em Portugal há cinco anos. Mas, sem cidadania, esbarrava na ausência de um visto. Havia adiado seu sonho para atuar como designer UX (de experiência de usuário) em uma TV do Rio. Durou até 19 de julho.

No início de agosto, chegava a Portugal. Foi contratada pela Farfetch, um unicórnio (como são chamadas as empresas avaliadas em US$ 1 bilhão) do e-commerce, que pagou todas as despesas de viagem, alugou apartamento para ela e a companheira por um mês, financiou e cuidou rapidamente da concessão do visto de residência para profissional estrangeiro altamente qualificado.

O desfecho da história de Stella é um dos exemplos de desburocratização do sistema de vistos tecnológicos e de trabalhadores especializados em Portugal. Criada este ano pelo governo para dar apoio às empresas no recrutamento de estrangeiros, a modalidade de concessões especiais Tech Visa ajuda a preencher de maneira ágil milhares de vagas de TI disponíveis no país.

Até julho, foram emitidos 338 Tech Visas, sendo 284 para o Brasil, segundo a IAPMEI, Agência para a Competitividade e Inovação de Portugal.

– Portugal precisa de milhares de profissionais de TI. Tentamos resolver os dois principais problemas, que são: aonde vou para começar o negócio? E, depois, aonde eu vou para encontrar os melhores funcionários? Neste último se baseia o Tech Visa, que não anula os outros vistos qualificados.

O objetivo é ajudar as empresas a encontrarem os melhores profissionais e a trazê-los para Portugal, se não estiverem no país — explica o alemão Simon Schaefer, diretor executivo da Start-Up Portugal, que já certificou 113 empresas no programa.

Para ser ‘hub’ tecnológico

Com experiência no mercado, Stella foi indicada por um amigo brasileiro que trabalha na empresa. Se fosse esperar por um visto normal de trabalho, mais burocrático, poderia perder a vaga. Após uma bateria de entrevistas em inglês com gestores da empresa, que decidiram pela contratação, tudo foi rapidamente resolvido.

– Eu recebi por correio o meu contrato de trabalho e a passagem de avião. Além do passo a passo para a concessão de visto para profissional qualificado no consulado de Portugal. Foi tão fácil que eu até pensei: “Não pode ser, está tranquilo demais”. Sempre foi meu sonho trabalhar na Europa. Tentei de todas as formas. A última tacada seria um visto de estudante, em um mestrado, para depois arranjar trabalho. Não foi preciso – conta Stella.

Em um primeiro momento, o programa Start-Up Portugal criou políticas de incentivos para as empresas de TI ajudarem o país a superar a crise econômica. Nesta fase, tem facilitado para as empresas aptas ao Tech Visa a captação e a retenção de talentos do mercado externo, fora da União Europeia.

As empresas têm de comprovar uma base tecnológica inovadora e de alcance global. Tudo faz parte da estratégia para transformar Portugal em um hub tecnológico da Europa.

– Portugal está no caminho para virar este hub . O desenvolvimento é comparável ao de Berlim, por exemplo – diz Schaefer.

Desde o lançamento em 2016 da Estratégia Nacional para o Empreendedorismo, ou simplesmente Start-Up Portugal, o país viu surgir seus três primeiros unicórnios (Farfetch, OutSystems e Talkdesk), gerou milhares de empregos, atraiu investimentos da ordem de milhões de euros e virou sede de centros tecnológicos de ponta na Europa, como o do Google em Oeiras, na região metropolitana de Lisboa, com a criação de 1.300 vagas.

Experiência de brasileiros

A Landing Jobs, que promove a conexão entre empresas de TI e profissionais, escolheu o Brasil para a campanha Top Opportunities Program (TOP). O objetivo é recrutar 30 profissionais brasileiros da área, que terão facilidade de entrada no mercado português e todos os custos de vistos cobertos.

José Paiva, diretor executivo da Landing Jobs, explica que a empresa tem certificação para o Tech Visa, mas recorre a outros vistos, que também servem aos profissionais de TI. Ele acrescenta que a empresa recebeu mais de mil candidaturas para as 30 vagas e que novos processos de aplicação serão abertos:

— A insegurança do Brasil impulsiona os brasileiros. Eles não chegam para ganhar mais, porque em Portugal não se paga mais. Procuram um lugar tranquilo e seguro. E têm experiência enorme, principalmente com gerenciamento de banco de dados, porque lidam com milhões de registros, 20 vezes mais que em Portugal.

O Tech Visa é a ferramenta mais recente para empresas com atuação global, com sede ou estabelecidas em Portugal. Mas os demais tipos de visto e de autorização de residência para trabalho e empreendedorismo continuam a existir, como o D3 (qualificados) e o StartUp Visa (para fundadores de start-ups ).

De acordo com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), a portaria que regula o Tech Visa é um desdobramento do artigo 90º da Lei de Estrangeiros, que dispõe sobre as profissões altamente qualificadas candidatas ao visto.

Ao chegar em Portugal, diz o SEF, o visto qualificado é transposto para uma autorização de residência, com a permissão para reunir famílias. Foi o que fizeram Stella e a companheira, que trabalha remotamente para empresas de TI do Brasil.

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